O Malamulo Adventist Hospital faz parte de um espaço que compreende os seguintes:
- O hospital;
- Uma universidade "Malamulo College of Health Sciences" (que faz parte da Malawi Adventist University) onde se podem tirar Certificados ou Diplomas em Enfermagem e Midwifery (Parteira), em Medicina Clínica (Medical Assistant ou Clinical Officer) e em Tecnologia de Laboratório;
- Uma escola secundária;
- Uma escola primária;
- A igreja Adventista do sétimo dia;
- Hostels onde os estudantes vivem;
- Casas para os trabalhadores do hospital ou das escolas.
Dada a existência destes programas de estudos, o hospital recebe muitas vezes alunos que têm aulas práticas ou estágios, bem como vemos imensos por todo o campus, agregado ao hospital.
No fundo, o Malamulo, que fica numa região rural, é uma zona protegida e não se vê extrema pobreza, mas se nos afastarmos algumas centenas de metros vemos pequenas vilas com pessoas a viver muito mal... E são essas que, a maior parte das vezes, vêm ao hospital e querem ir embora o mais depressa possível pois não têm muito dinheiro para pagar a conta.
O Hospital é constituído pela Enfermaria Geral (que tem os doentes médicos e cirúrgicos separados, com alguns quartos semi-privados), Maternidade, Bloco Operatório (Theatre), Pediatria, Consultas, Anexo (edifício à parte com quartos privados), Laboratório, Clínica de Dia, Dentista (1x/semana), Fisioterapia, Radiologia, Saúde Comunitária, etc. - ver http://www.malamulohospital.org/ .
Como já vos disse, os Medical Assistants e Clinical Officers têm autonomia para fazer quase tudo no hospital: prescrever medicamentos, pedir análises, exames, internar, dar alta, e o médico é chamado quando há dúvidas ou quando é preciso. Basicamente seguem protocolos, guidelines, mas posso diver-vos que alguns deles são muito bons no que fazem (sinto-me pequena em comparação com eles!). Os Clinical Officers podem, inclusive, realizar cesarianas,
circuncisões, laqueações tubárias, punções, drenagens e outras técnicas e
procedimentos cirúrgicos simples. Não obstante, os médicos revêm os
doentes internados, mas não com a frequência que os outros clínicos
revêm se esses estiverem estáveis. Nem todos os doentes, principalmente os da Enfermaria Geral Médica e Maternidade, são vistos todos os dias por um médico, mas penso que um Cirurgião (existe o Dr Hayton, que vive lá a longo prazo e, por vezes, um residente de cirurgia que fica lá durante 2 meses e vai rodando) vê os cirúrgicos todos os dias. O Dr Crounse, de Medicina Interna, não consegue ver todos os doentes médicos todos os dias porque está nas consultas externas quase todo o dia, bem como a outra médica recém-formada que aqui está por 6 meses, mas um deles roda sempre o Anexo e dá uma olhada pelas outras enfermarias para ver se está tudo orientado. Para além disso, os doentes principais, quer casos mais críticos, quer mais raros, são discutidos na reunião matinal diária, às 7:30, portanto os médicos estão a par do que se passa, embora haja, por vezes, casos que "escapam" devido à rapidez de evolução do quadro dos dados doentes, que são motivo principal de discussão das reuniões de quinta feira, estas mais prolongadas.
O hospital não tem muitos recursos, trabalha com o mínimo e grande parte dos materiais que recebe são doações. Mas claro que clinicamente isto é um grande desafio! Existe máquina de Raios-X, dois Ecógrafos portáteis e pelo menos um Eco Doppler, mas é óbvio que não existe TAC ou Ressonância Magnética. Existe um laboratório, mas de noite não tem ninguém, ficando apenas uma pessoa "de chamada" que vai para lá quando há algo emergente. Se dos IECAs só existe Enalapril, dá-se Enalapril. Se AINE oral só existe Diclofenac, dá-se Diclofenac. Só existem luvas L não esterilizadas e 7 1/2 esterilizadas (algumas 6 1/2 ocasionalmente). Os procedimentos assépticos, como uma punção lombar, por exemplo, fazem-se com recurso ao uso de pads de álcool apenas. Por vezes não há a sutura indicada para o que se quer suturar, mas é essa que se usa (por exemplo, usar uma que normalmente se usa para cozer o pé para cozer o canal vaginal após o parto). Os doentes têm que trazer comida de casa (a não ser que estejam em quartos privados no anexo, que tem uma pequena cozinha com cozinheiros) e por vezes é insuficiente para as suas necessidades. Não há sangue suficiente para transfusões por vezes. E tantas outras coisas...
A propósito da prática de Medicina no Malawi no que diz respeito aos Clinical Officers e Medical Assistants, encontrei um artigo muito interessante: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2657565/#!po=75.0000
Eu vejo pessoas a morrer por falta de informação, por recorrerem tarde de mais ao hospital, mas também por falta de recursos! O Malamulo precisa de ajuda, de donativos - se tiverem esse desejo, podem fazê-lo em http://www.adventisthealthinternational.org/article/27/how-can-i-help/financial-donations e direccionar para este hospital em particular.
Gostava de ter tempo para escrever tudo isto da forma mais bonita e correcta possível, mas o tempo é algo que não abunda...
Digam-me, por favor, os que têm interesse, que temas gostariam que eu abordasse ou que perguntas têm para me fazer, pois passa-se aqui tanta coisa que eu nem sei o que hei-de contar.
Eunice
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Dias de folga - Zomba e Liwonde
Apesar de ter ido para o Malawi com outro propósito, tirei uns diazinhos para viajar e conhecer um bocadinho do país (quase nada), o que foi óptimo para descansar! Acho que foram os únicos dias em que não meti os pés no hospital...
Eu e mais dois amigos planeámos visitar Zomba e Liwonde. Para tal, tivemos que ir primeiro ter a Bantyre para arranjar um carro que nos levasse aos nossos destinos. E como se viaja a um preço razoável de Makwasa para Blantyre, a segunda cidade mais importante do Malawi? Nos maravilhosos "mini bus"! Já ouviram falar de carrinhas de 10 lugares que levam quase 20 pessoas, por vezes algumas com cabeças, e não só, de fora? É isso mesmo... No caso da nossa viagem, tivemos que trocar duas vezes pois não há directos e até uma galinha usufruiu desse meio de veículo maravilhoso!
Em Zomba, caracterizada por uma montanha, apenas passeámos pela montanha e comprámos frutos
silvestres vendidos à beira de uma pequena estrada, no meio do nada, a caminho do topo. Em Liwonde, para
além de descansarmos, fizemos um safari de barco, onde pernoitámos ao som dos
hipopótamos, e um mini safari de carro (game driving) no Liwonde National Park. Vimos elefantes,
crocodilos, aves e, claro, muitos hipopótamos, que deixavam apenas as
orelhinhas de fora quando o barco se aproximava. Por terra, vimos veados,
kudus, macacos, e outros, mas segundo o condutor não foi um bom dia, pois poucos
animais apareceram.
Foi, de facto, maravilhoso desfrutar da natureza que Deus
criou, principalmente durante a estadia no barco. Ver o nascer do sol ao som da
melodia mais natural possível, em pleno lago, sem nada artificial à volta, sem
quaisquer construções ou luzes foi lindo…
domingo, 1 de setembro de 2013
Laqueações Tubárias (Bilateral Tubal Ligation)
Alguns de vós concerteza já ouviram falar de um método contraceptivo irreversível que consiste na interrupção do canal que liga os ovários ao útero – as trombas de Falópio -, de modo a que a mulher nunca mais engravide. Em Portugal, este procedimento chama-se Laqueação Tubária e faz-se, normalmente, em mulheres que já têm um número considerável de filhos e/ou um número considerável de anos e não desejam ter mais filhos nem usar outro método contraceptivo. No fundo, é um corte em ambas as trompas através de uma cirurgia tem que se tem que “abrir a barriga”.
Eu tive o privilégio de ajudar a fazer 5 ou 6 deste “very simple procedure” (cirurgia muito simples), como dito pelo clinical officer que as fazia – exacto, o procedimento requer um clinical officer e um ajudante, que neste caso fui eu.
Se estão espantados, esperem pelo resto… Este “very simple procedure”, em que se tem que fazer um corte na barriga, abrir o peritoneu, mexer lá dentro (às vezes vem a tripa para fora) e etc., aqui é feito numa salinha (não num bloco operatório), sem roupas cirúrgicas, sem máscara, só com luvas e material esterilizado, e … só com anestesia local! Exactamente, sem anestesia epidural ou geral. Não imaginam o meu espanto! Principalmente quando a primeira senhora se estava a queixar imenso...
Enfim, faz-se, e todas as que vi correram bem. O clinical officer Ezekiel já chegou a fazer várias dezenas por dia noutro hospital do Malawi e diz que corre bem e que é muito simples, portanto se eles não estão preocupados nós também não devemos estar, pois num país em que os recursos são poucos, isto constitui um bom método de controlo da natalidade ;)
E esta é a tal sala onde se fazem as BTL.
Makwasa Market
À sexta-feira, Makwasa, vila a que o Malamulo pertence, enche-se de gente no mercado semanal, onde são
vendidos alimentos, entre os quais feijão, banana, papaia, variados vegetais
(os quais alguns desconheço), roupa, tecidos e objectos diversos como em todos
os mercados, mas embora estejam a pensar que a variedade é grande, no que toca
a alimentos não é assim tão vasta. As únicas frutas que se vendem aqui são
estas duas e outra que não conheço, mas que também não é muito apreciada,
portanto imaginem as minhas saudades de maçãs!
As refeições aqui em casa são à base de feijão, soja ou
salsichas de soja, “rape” (uma couve), arroz/massa/sima (que é o prato típico do Malawi,
tipo puré feito de farinha de milho), molho de tomate, e às vezes tomate e papaia. Ah e bolo, o Jasmin está sempre a
fazer bolos ou muffins!
Resolvi, então, experimentar fazer sopa de legumes como
fazemos em Portugal (que é desconhecida, pelo menos da forma como a fazemos e o
que usamos, tanto pelos Malawianos como pelos outros internacionais que aqui
estão) com os vegetais que encontrei no Mercado de Makwasa numa sexta-feira
(dia 23/08). Encontrei algo parecido com courgette, beringelas, cebolas, batata doce e
feijão verde. Com cerca de 800 kwacha (menos de 2€) deu para fazer uma panela
muito grande de sopa, que deu para muitas porções. Podem ver o resultado em
baixo…
Foi bastante apreciada, tanto pelos habitantes cá de casa como
por alguns amigos malawianos a quem dei. Alguns até me pediram que lhes
ensinasse. Então, durante a última semana, repeti e convidei alguns malawianos - a Tisungani, a Esther e o Felix - para a
fazerem comigo e ficarem para jantar. Foi muito agradável :)
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