segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Malamulo - o hospital

O Malamulo Adventist Hospital faz parte de um espaço que compreende os seguintes:
- O hospital;
- Uma universidade "Malamulo College of Health Sciences" (que faz parte da Malawi Adventist University) onde se podem tirar Certificados ou Diplomas em Enfermagem e Midwifery (Parteira), em Medicina Clínica (Medical Assistant ou Clinical Officer) e em Tecnologia de Laboratório;
- Uma escola secundária;
- Uma escola primária;
- A igreja Adventista do sétimo dia;
- Hostels onde os estudantes vivem;
- Casas para os trabalhadores do hospital ou das escolas.

Dada a existência destes programas de estudos, o hospital recebe muitas vezes alunos que têm aulas práticas ou estágios, bem como vemos imensos por todo o campus, agregado ao hospital.
No fundo, o Malamulo, que fica numa região rural, é uma zona protegida e não se vê extrema pobreza, mas se nos afastarmos algumas centenas de metros vemos pequenas vilas com pessoas a viver muito mal... E são essas que, a maior parte das vezes, vêm ao hospital e querem ir embora o mais depressa possível pois não têm muito dinheiro para pagar a conta.

O Hospital é constituído pela Enfermaria Geral (que tem os doentes médicos e cirúrgicos separados, com alguns quartos semi-privados), Maternidade, Bloco Operatório (Theatre), Pediatria, Consultas, Anexo (edifício à parte com quartos privados), Laboratório, Clínica de Dia, Dentista (1x/semana), Fisioterapia, Radiologia, Saúde Comunitária, etc. - ver http://www.malamulohospital.org/ .
Como já vos disse, os Medical Assistants e Clinical Officers têm autonomia para fazer quase tudo no hospital: prescrever medicamentos, pedir análises, exames, internar, dar alta, e o médico é chamado quando há dúvidas ou quando é preciso.  Basicamente seguem protocolos, guidelines, mas posso diver-vos que alguns deles são muito bons no que fazem (sinto-me pequena em comparação com eles!). Os Clinical Officers podem, inclusive, realizar cesarianas, circuncisões, laqueações tubárias, punções, drenagens e outras técnicas e procedimentos cirúrgicos simples. Não obstante, os médicos revêm os doentes internados, mas não com a frequência que os outros clínicos revêm se esses estiverem estáveis. Nem todos os doentes, principalmente os da Enfermaria Geral Médica e Maternidade, são vistos todos os dias por um médico, mas penso que um Cirurgião (existe o Dr Hayton, que vive lá a longo prazo e, por vezes, um residente de cirurgia que fica lá durante 2 meses e vai rodando) vê os cirúrgicos todos os dias. O Dr Crounse, de Medicina Interna, não consegue ver todos os doentes médicos todos os dias porque está nas consultas externas quase todo o dia, bem como a outra médica recém-formada que aqui está por 6 meses, mas um deles roda sempre o Anexo e dá uma olhada pelas outras enfermarias para ver se está tudo orientado. Para além disso, os doentes principais, quer casos mais críticos, quer mais raros, são discutidos na reunião matinal diária, às 7:30, portanto os médicos estão a par do que se passa, embora haja, por vezes, casos que "escapam" devido à rapidez de evolução do quadro dos dados doentes, que são motivo principal de discussão das reuniões de quinta feira, estas mais prolongadas.
O hospital não tem muitos recursos, trabalha com o mínimo e grande parte dos materiais que recebe são doações. Mas claro que clinicamente isto é um grande desafio! Existe máquina de Raios-X, dois Ecógrafos portáteis e pelo menos um Eco Doppler, mas é óbvio que não existe TAC ou Ressonância Magnética. Existe um laboratório, mas de noite não tem ninguém, ficando apenas uma pessoa "de chamada" que vai para lá quando há algo emergente. Se dos IECAs só existe Enalapril, dá-se Enalapril. Se AINE oral só existe Diclofenac, dá-se Diclofenac. Só existem luvas L não esterilizadas e 7 1/2 esterilizadas (algumas 6 1/2 ocasionalmente). Os procedimentos assépticos, como uma punção lombar, por exemplo, fazem-se com recurso ao uso de pads de álcool apenas. Por vezes não há a sutura indicada para o que se quer suturar, mas é essa que se usa (por exemplo, usar uma que normalmente se usa para cozer o pé para cozer o canal vaginal após o parto). Os doentes têm que trazer comida de casa (a não ser que estejam em quartos privados no anexo, que tem uma pequena cozinha com cozinheiros) e por vezes é insuficiente para as suas necessidades. Não há sangue suficiente para transfusões por vezes. E tantas outras coisas...


A propósito da prática de Medicina no Malawi no que diz respeito aos Clinical Officers e Medical Assistants, encontrei um artigo muito interessante: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2657565/#!po=75.0000

Eu vejo pessoas a morrer por falta de informação, por recorrerem tarde de mais ao hospital, mas também por falta de recursos! O Malamulo precisa de ajuda, de donativos - se tiverem esse desejo, podem fazê-lo em http://www.adventisthealthinternational.org/article/27/how-can-i-help/financial-donations e direccionar para este hospital em particular.

Gostava de ter tempo para escrever tudo isto da forma mais bonita e correcta possível, mas o tempo é algo que não abunda...
Digam-me, por favor, os que têm interesse, que temas gostariam que eu abordasse ou que perguntas têm para me fazer, pois passa-se aqui tanta coisa que eu nem sei o que hei-de contar.

Eunice

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